sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Boldo

Um dia,  lembrei-me do teu rosto
Desenhei um caminho
E quis segui-lo em grandes passos
Mas eu me perdi
bem no meio
num vazio
Lembrei-me por qual motivo não mais escrevia
nem te desenhava
eu estava seca
Era apenas tudo aquilo que caía
e nunca chegava ao chão
Era tudo aquilo que debruçava-se no ar
e era carregado facilmente pelo vento
Que tinha cheiro de tinta fresca
e como um rabisco qualquer 
eu apagava sem lamentos
Mas as sobras ficaram
e recordaram-me sentimentos
fizeram uma mistura
e em minha mente
murchavam traços
e tempo

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Giz

Parede não, era um muro que ali havia
Não tinha teto, teu rosto bronzeava-se com a luz do sol
e lavava-se com a chuva que caía 
Parede não, era um muro que ali havia
Teus pés sujavam-se com  a terra do chão e teus joelhos também
quando por descuido você caía
Frutos das tuas corridas, alguns fios  de cabelo foram perdidos
Fruto da tua paciência, voltaram-te as belezas ativas depois de tanto ter escondido
Parede não, era um muro que ali havia
Sustentava teus desesperos quando de noite tua voz sumia
Parede não, era um muro que ali havia
Permanecia de pé quando sobre muros e paredes você discutia
"Parede não, era um muro que ali havia"
Olhando tua insistência em falar "muro"
porque era assim
contestando o mundo 
que tua graça aos olhos alheios se via

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Chá

Meus devaneios repeliam todo o medo
Meus sonhos inquietos se acalmavam teus lábios azedos
Tinha um corpo gelado, pálido, pés pequenos e pupilas dilatadas
Meus dedos te exploravam e atavam alguns nós
eles desenhavam teu corpo sobre o meu
eu soprava tuas orelhas
sussurrava meu carinho
nossos braços embaraçados formavam ninhos
Ah, teus lábios azedos
azedos como gosto
Tocando-te sentia as batidas fortes marcando o tempo
tempo esse que corria e eu tentava segurar
Eu parava
deixava tuas bochechas nas minhas tocar
e chorava
chorava por dentro
chorava baixinho 
pensando em como em ti com toda a simplicidade eu me envolvia
e quando você olhava 
eu te fitava
calada
sem jeito
e mansinho você ria